Márcio Tuma, presidente do Paysandu. (Wagner Santana/ O Liberal)

Paysandu apresenta plano com corte drástico nas dívidas e prazo longo

O Paysandu submeteu à Justiça um plano de recuperação judicial que prevê reduções significativas das dívidas e prazos estendidos para o pagamento aos credores. O documento, obtido pelo Núcleo de Esportes de O Liberal, foi protocolizado na última quinta-feira (23), dentro do prazo legal após a instauração do processo, e propõe abatimentos que chegam a 85% do montante devido, com quitação em até dez anos.

Presidente Márcio Tuma acompanhado do vice Diego Moura e do diretor Alberto Maia. (Jorge Luís Totti/Paysandu)

A tática adotada pelo clube privilegia o horizonte de longo prazo e visa aliviar o fluxo de caixa no período mais crítico. Em determinados casos, o plano prevê carência de até três anos antes do início das parcelas, providência que demonstra a intenção de criar margem financeira para possibilitar a reestruturação administrativa e esportiva.

As condições variam de acordo com a categoria do credor. No caso de dívidas trabalhistas envolvendo jogadores, ex-atletas e empregados, o Paysandu propõe reduzir os saldos em 50% e quitá‑los em até doze meses. Para credores sem garantia e para aqueles com garantia real, como fornecedores e instituições financeiras, a oferta é mais contundente abatimento de até 85%, com o início dos pagamentos somente após um período de carência de três anos e parcelamento distribuído ao longo de dez anos.

O plano contempla igualmente a novação das dívidas, instrumento jurídico que substitui os débitos antigos por novas condições de pagamento, caso o documento venha a ser aprovado. Na prática, todas as obrigações incluídas no procedimento passariam a obedecer às regras estipuladas no plano.

Na peça protocolada junto ao Judiciário, o clube atribui a situação crítica a um desequilíbrio financeiro acumulado ao longo dos anos, potencializado por oscilações no desempenho esportivo e por alterações no modelo econômico do futebol brasileiro. O Paysandu admite que, em vários momentos, teve gastos superiores às receitas, frequentemente sustentados por projeções de ganhos futuros como acessos de divisão que não se materializaram de forma consistente.

📷 Bruno Castro – diretor jurídico; Márcio Tuma – presidente; e Thiago Bentes – executivo administrativo |Foto: Jorge Luís Totti/Paysandu

O relatório também ressalta o efeito da recente queda para a Série C sobre o orçamento, com retração das receitas oriundas de transmissão televisiva, patrocínios e premiações. Simultaneamente, o passivo continuou a aumentar, abrangendo dívidas trabalhistas, cíveis e fiscais, muitas das quais já se encontram em fase de cobrança judicial.

Apesar do contexto, o clube afirma que há viabilidade financeira para a recuperação. Dentre os principais pontos estão a força da torcida, vista como o principal ativo da instituição, a preservação das receitas operacionais e a implementação de ações internas focadas na diminuição de despesas e na profissionalização da administração.

No entanto, a aprovação do plano depende da concordância dos credores em renunciar a uma parte considerável dos montantes devidos. Depois de apresentada, há um período para avaliar as condições e, se houver objeções, pode ser convocada uma assembleia para discussão. Caso seja aprovado, o plano passa a governar oficialmente o pagamento das dívidas.

A recuperação judicial do Paysandu foi decretada em 20 de fevereiro, estabelecendo um período de 180 dias de suspensão das execuções de dívidas. Durante esse período, o clube deve organizar e cumprir o plano proposto.

Márcio Tuma | Jorge Luis Totti, ascom Paysandu

O passivo totaliza aproximadamente R$ 75 milhões. Mais de R$ 15 milhões desse total são referentes a dívidas trabalhistas. O saldo restante abrange dívidas com entidades públicas, como União, Estado e Município, além de compromissos comuns, sem garantia real, como contribuições e doações. Um dos exemplos mencionados é o do ex-presidente Roger Aguilera, que aportou aproximadamente R$ 12 milhões no clube e já afirmou que não pretende reivindicar esse montante.

Como o processo não é sigiloso, torcedores e interessados podem acompanhá-lo publicamente. Uma das condições estabelecidas pela Justiça é que o Paysandu deve enviar relatórios financeiros mensais até o dia 15 de cada mês. Por meio de procedimentos específicos, os credores devem formalizar habilitações ou divergências, de acordo com editais que ainda serão divulgados juntamente com a lista oficial.