A temporada de 2026 sinaliza um extenso processo de reorganização no Paysandu, depois de um ano turbulento, caracterizado por rebaixamento e renúncia presidencial, o clube está em direção a uma mudança de paradigma que abrange todos os setores, não apenas o futebol, sob a supervisão do Departamento Jurídico, entidade fundamental na prevenção de riscos e na defesa institucional.

Nesta entrevista, os advogados do staff jurídico bicolor, liderados por Bruno Castro, discutem a rotina de trabalho e as novas estratégias implementadas pelo clube para enfrentar o temporal que se aproxima das terras bicolores.
Enquanto se dedicam à regularização da instituição perante as autoridades estaduais e federais, os advogados do clube também se empenham em reduzir o número de ações, por meio de negociações, reuniões e análises de contratos.
Um dos movimentos mais significativos recentemente foi a adesão ao Programa de Regularização Fiscal do Pará (Prorefis), promovido pela Secretaria de Estado da Fazenda (Sefa). Essa ação possibilitou o parcelamento de dívidas estaduais, proporcionando ao clube maior flexibilidade financeira e permitindo a obtenção de certidões negativas. No futuro, essas certidões podem resultar em novos e maiores patrocínios, por exemplo.
“Os projetos chegam com mais facilidade aos clubes que estão devidamente organizados. Sem as certidões, por exemplo, o Paysandu não teria recebido os valores da Copa Verde”.
Internamente, a direção do clube tomou uma medida significativa para a integração ao unir o departamento jurídico ao futebol. De acordo com Bruno Castro, o envolvimento começa desde as primeiras negociações para a contratação de jogadores.

“Quando o futebol inicia uma negociação, o contrato passa pelo jurídico, que analisa riscos e sugere ajustes. Não temos poder de veto, mas indicamos caminhos mais seguros para o clube”.
“Hoje, o jurídico só perde para o financeiro em volume de trabalho. É uma atividade constante, diária”, resume.
O trabalho preventivo também é refletido na área disciplinar, em 2024, o Paysandu conseguiu evitar punições esportivas que eram comuns em anos anteriores, como perda de mando de campo e multas no STJD.
“Isso não acontece por acaso. Houve eficiência na gestão desses processos”, afirma Bruno
“Em relação ao pagamento de parcelas, firmamos acordos com 90% ou mais dos atletas que estavam no clube em 2025. Eu mesmo participei das negociações e revisei os acordos de trabalho, inclusive os relacionados a direitos de imagem. Conseguimos abatimentos e chegamos a valores mais adequados para o clube. A grande maioria está sendo paga, e as demais serão quitadas dentro das condições que o Paysandu pode cumprir.”

Embora tenha avançado, o Paysandu ainda enfrenta um grande número de processos judiciais em curso. Considerando as cobranças de jogadores que participaram em 2025, o montante total atinge R$ 14.026.518,26. Com a multa judicial de R$ 1,5 milhão devido a atrasos salariais, o total em questão chega a R$ 15.526.518,26, excluindo as ações mais antigas. O clube enfatiza que esses montantes correspondem a reivindicações em processos ainda em andamento e não a condenações definitivas.
“Temos várias ações trabalhistas em andamento, mas que não geram preocupação imediata, porque ainda haverá audiências, contestações e recursos. Se alguém pede cinco milhões, isso não significa que vá receber esse valor. Cada um pede o que entende. O passivo trabalhista não é de 15 milhões, como se comenta”, rebate o advogado Andrey Damasceno.
O valor da multa, que é de R$ 1,5 milhão, resulta do não cumprimento de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado em 2008 com o Ministério Público do Trabalho.
“É um acordo antigo, que obrigava o clube a nunca mais atrasar salários. O descumprimento gerou uma multa milionária. É um exemplo claro de como decisões do passado impactam diretamente o presente”, explica o diretor jurídico.

No entanto, esse e outros acordos acabam afetando diretamente os recursos financeiros originalmente destinados ao futebol.
“O peso dessas dívidas equivale a quase duas folhas de pagamento. Se comprometermos todo o presente para pagar tudo de uma vez, inviabilizamos o clube”, explica Bruno
O departamento jurídico também trata de casos particulares relacionados a ex-empregados. Em relação a ações que envolvem nomes famosos, a abordagem é técnica.
“Reconhecemos a história de profissionais importantes, mas estamos aqui para defender os interesses do clube”.
“O caso do Hélio dos Anjos é trabalhista, e o do Yago Pikachu é cível. A ação do Hélio está atualmente em segundo grau, em fase recursal, e ainda pode seguir para Brasília. É um processo que, neste momento, não nos preocupa, porque um recurso pode levar pelo menos um ano para ser analisado. Quanto ao Yago Pikachu, o processo corre sob sigilo de Justiça. Por isso, não podemos fazer comentários mais aprofundados. Trabalhamos em um pedido de retirada do sigilo para que os fatos fiquem claros. Uma coisa é certa: o Pikachu não deve ao Paysandu, e o Paysandu não deve ao Pikachu”.
Ademais, o clube procura quebrar com práticas tradicionais, como a antecipação frequente de receitas, que até o ano passado ainda existiam.
“Chegou um momento em que não havia mais o que antecipar. Isso vicia a gestão. O que queremos agora é não repetir essa política”.
“Hoje há diálogo, modelo definido e mais credibilidade. Se o jogador não aceita, segue o caminho dele”, conclui.
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